Nogueira de Barros é um nome estabelecido há vários anos no panorama da arte contemporânea portuguesa. Com mais de uma centena de exposições tanto em território nacional quanto internacional, o artista natural de Almada detém uma estética inconfundível, resultado de técnicas pictóricas inovadoras desenvolvidas ao longo dos anos.

Movendo-se no amplo espaço da abstração, a sua pintura exibe as várias agregações de um processo assumidamente encantatório onde a própria natureza, no seu esplendor e intrincamento, serve de inspiração e ponto de partida. Talvez essa seja mesmo a única referência necessária a uma entrada no universo visual de Nogueira Barros, a Natureza em sentido lato, não o seu plasmar mas a incitação ao movimento plástico, que depois o artista percorre de forma orgânica mas incessante e resiliente. 

 

 

 

O mundo natural não obstante a sua constante estabilização, até de uma certa aparência estanque ao nosso olhar, derivada do nosso relacionar com ele no dia a dia, acaba por aparecer aos nossos olhos revestido por uma face de familiaridade, de constância. Ora tal familiaridade acaba por no fundo propor uma superfície, um nível raso onde a espessura fica ignorada. Como sabemos a arte, na sua aceção ampla, move-se em via de repor ou restabelecer esse fluxo e verticalidade, do fazer consciente da profundidade e multiplicidade de tudo aquilo que nos rodeia. Porque o dia a dia tem esse efeito colateral de quase anestesiar, de acomodação às formas e fisicalidades, daí que o “estranhamento” seja uma noção tão usada na teorização artística, pois parece realmente que disso se trata, uma peça artística como atuante em contra-efeito, e que ao estranhar(-nos) está enfim a revelar.  Está a recolocar o ser na sua relação vital com o mundo e as suas realidades.

Com a mostra “Spring Colors”, Nogueira de Barros demonstra uma vez mais a sua mestria em trabalhar de um modo inovador e rico aquele que é o elemento central da sua prática: a cor. Aqui o desafio passava por expandir o mundo cromático  e os seus processos à riqueza do continente africano, e fazendo-o apresenta-nos agora aquilo que podemos considerar enquanto testemunho artístico. Através de uma “declaração sincera” de como imagina esse mundo “Africano”, somos instados a seguir as confluências entre a marca pictórica e a evocação de padrões que apontam a espaços e gentes pertencentes a esse mundo. Pois, em ultima instância, a abstração advém de uma motivação fluida, e qualquer coisa no mundo pode sugerir o tomar desse caminho. Imagens, emoções, lugares podem atuar como catalisadores do ímpeto de criação, e muito por causa dessa natureza a arte abstrata aparece sempre como uma abordagem nova e desencadeadora de possibilidade, tanto do ponto de vista do artista como do público que se investe com (e nas) peças abstratas.