No que à pintura diz respeito, a abstração resulta em boa parte de um caminho de libertação artística. O abandonar da noção de que a pintura teria de desempenhar a função de fidelidade representativa do real. Ser um espelho, reproduzir a realidade visível tal como a percecionamos. Poderemos considerar que essa intenção de “fidelidade” conduziu muitos dos esforços técnicos e estéticos no desenvolvimento histórico da prática pictórica.

Quando, durante o século XIX, a invenção da fotografia vem finalmente possibilitar outro meio de captar a realidade, os artistas vão-se tornando agentes de uma prática cuja razão de ser, pelo menos em termos teóricos e funcionais, poderia perder a legitimidade do seu papel cultural e social. Isto, era inevitável, veio levantar um novo conjunto de exigências à própria pintura. Ela teria de encontrar novos caminhos, e consoante o foi fazendo, o que se demonstrou foi as enormes potencialidades (mais do que apenas funções) que a pintura possui. Enquanto o gerar artístico quase sempre partira do exterior, usando o real como ponto de partida, agora abria-se o espaço necessário para o foco dos artistas sobre os próprios elementos constitutivos da pintura: cor, luz, pincelada, linha, textura. Em simultâneo, ao abrir um espaço de possibilidades sobre o próprio concretizar pictórico, é expandida a expressividade daquele que pinta, pois uma aproximação experimental com os elementos da pintura vai propor novos relacionamentos do indivíduo com o real e com a sua “realidade”.

Quando dizemos que uma pintura é abstrata geralmente temos em mente um tipo de representação onde precisamente se verifica uma dificuldade em discernir o que de facto é representado. Tal advém, não obrigatoriamente de um abandono do real, mas de uma abordagem pictórica que abdica da descrição realista desse real. Ao não existir uma referência à fidelidade visual do mundo, estamos perante uma perspetiva artística não-objetiva. Esse é o traço característico da arte abstrata, a ausência de uma identificação imediata, contudo, o grau de abstração pode variar. Podemos ter pinturas onde os objetos ou referências que estimularam o artista de algum modo permanecem identificáveis, ou, por outro lado, podemos ter uma pintura cujo assunto é completamente abstrato. No fundo a abstração é passível de ser pensada enquanto um espectro que oscile entre o realismo e o seu distanciamento.  

As pinturas atualmente em exposição revelam essa variação.